23:49 - Chamado*

Quadro: Reflection in the Mirror. Henri Matisse. 1923. 

Um chamado no portão desperta os sentidos mais inconsciente de ouvidos desatentos no fundo das ondas sonoras do medroso clamor noturno. Poupam-se os demais sentidos da surpresa desmedida feita no entardecer cedo de qualquer hora em que a vontade bate e o desejo salta aos olhos como selvagens feras buscando sua presa mais fácil e abundante. Busca em perigosos terrenos matar essa vontade e no estrangular da voz em desespero surge a imagem vulnerável de outra criatura inabitada que seu desejo pode satisfazer na travessia do mato com o rio.
Sem medo ou pudor aterroriza o silêncio reinante e de sua garganta ruge sua vontade mais que apressada em fazer-se tutora de seu alvo em movimento. Desalinha o pensamento em atordoante soneto febril de querer sem limite e do finito querido arranja-lhe as maneiras de superar os obstáculos postos em seu caminho. Aproxima-se de sua presa com o sorriso escorrendo entre dentes e apertos desmedidos, quebrando ossos na volúpia da comida rápida e servida na hora do desjejum.
Saboreando todas as partes que sua vista alcança em um minuto de descuido sua intenção é vista e para longe é rechaçada como ao temor nunca tido e do medo retira as forças para a resistência de última hora acordada. No fundo de si servir-se seria coisa de bom grado, no pensamento do prato passa a ideia e na cabeça gulosa da fome perder a linha que da meada fez a trilha até sua mais necessária caçada.
Perdida a chance, talvez, na pressa de chegar e de comida ficar por sua gula saboreada em tantos olhares pecaminosos. E talvez nem tudo esteja perdido se o outro lado nada tiver a perder com tamanha chance de despautério fazer em plena semana de jejum acometido sem seu consentimento incutido no semblante quieto do prato principal.
E marcam a hora do desejo ser consumido em pratos limpos de brancura infindável da mesa posta em outro distante lugar. Na demora do marcar as imagens mudam como em sonhos acordados fomentados pela marca vista e pelo sabor dado em amostra gratuita do fortuito encontro. Marcado, está, pois, o momento do desassossego fazer em ranhuras cometer os pecados gulosos do desejo extinto em plana alma animalesca.
Animais em ronda para garantir a boa chegada e a partida indefinida. E não será de silenciosos gritos que farão do dia, ou da noite, do aberto, ou do fechado, do perfumado, logo transformado em suor puro, das vestes, logo desvestidas, das palavras, logo caladas, do segredo, logo esquecido, a hora do arrepio em pleno verão úmido do trópico onde residem.
Estraçalham peles já manchadas. Roem ossos já secos pelo tempo. Descansam.
E no acordar repentino está, de novo a zombar, o desejo pela carne fresca e dominada que há muito conquistou em sorrisos maldosos. Parte para cima e faz de si a ferramenta necessária para de tudo aproveitar e do outro nada restar em destroços a lembrar quando no acabamento der sua mordida final de faminto animal, sequioso por alimento e bebida de qualidade e baixo trabalho, no custo do instinto exalado.
Se nada vale a pena, pode perguntar a comida na hora da morte, que de muitos se tornou objeto de desejo e sabor. Mas se não valer não será de arrependimento que partirá, mas de plena satisfação de a alguém alimentar na hora da precisão insana.
Sanado todo o deleite de ter tido um banquete querido, procurará outra cama para o sono matar e sonha, sempre e mais, em como de novo comer, de como em outra freguesia buscar seu alimento de cada dia. Um grito é ouvido.



*Do livro Pavilhão do Vizir, Rafael Rodrigo Marajá

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