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23:47 - Traição*

Quadro: Seated Harlequin. Pablo Picasso. 1901. Metmuseum

Falar é o começo de qualquer bar cheio de bêbados sem casa, agitando a animada conversa no outro lado da rua sem o pudor da intromissão em particular discussão de ex-amados. Na gesticulação de palavras ofensivas estão os casos segredados jogados ao chão como coisas sem valor certa vez ganhadas. E assim enganam os dois em frente a um bar no subúrbio presente do adeus querer bem.
Sons são ouvidos entre quentes deslocamentos de ar entre mãos e braços no evitar de um escândalo ainda maior que destrua de uma vez por todas seus últimos resquícios de respeito e bem querer. Para nem mesmo resguardar sua dignidade, não mais una, ser vista no esgoto abaixo, indo embora com o respeito próprio de dois seres em descomunhão está outra história desfeita em outra cama desconhecida na porta frágil de um bordel contemporâneo à moda antiga da rua sem asfalto no endereço do acaso.
Vai mais uma vez outra forma de trair encorajada pelo instinto de posse inapropriada de um corpo sem valor. E vai sorrindo sua vitória bebendo em cálice dourado a vãs tentativas de reconciliação dos dois pobres diabos, reduzidos a deprimentes vermes que brigam pelas toalhas jogadas no assoalho, pela compra ainda não feita, pelo filho que ficou no passado planejado, pelas desculpas das tardes de domingo. 
Na plateia estão seus órfãos sentimentos esperando que o ponto final chegue para que cada um, recolhidos seus pedaços, dirijam até o longe dali e peçam, sob soluços intermitentes, outra dose do veneno aceito durante todo um dia, ou uma noite, acompanhados pelos conselhos errôneos de uns tantos fracassados iguais. Tudo mudou no sim dado sem pensar e no ciúme desmedido. E na mudança de ares ficou também para um a casa lotada de porcarias sem valor, imagens sem sentido; para o outro apenas a reconstrução de novos imóveis e amores. Ambos longe da sabedoria e da decência tornam-se zumbis de conceitos seguidos e de pessoas sem escrúpulos no correr dos dias sem cores e sem gosto que criaram naquele cenário deplorável de acertos. Acabaram sem o perdão desmedido que também retido ficou entre o adeus e a vingança prometida, testemunhada pela curiosidade de tantos insolentes mendigos de vida.
Na caixa, trancada, jogada ao lixo, estavam os adjetivos ditos no auge do querer respeitoso. E no pranto surdo da noite repetida está o arrependimento de na porta conhecida não ir bater e desculpas pedir pelas ofensas ditas. Arrepender-se tão tarde não vale a pena quando a coragem não entra sem a licença devida pedir, sem o despautério do perdão buscar entre pedaços quebrados do espelho dado para a beleza conservar sua pose majestosa.
Gritos silenciosos ainda podem ser ouvidos no bar em frente ao palco de tantos desamores arrasados pela verdade, muitas vezes, aumentada para ferir o mais fundo possível. O esgoto para aos poucos de levar as lágrimas e o ódio fulminante dos atores como um contra-regra cansado de ajudar o mundo a divertir-se, enquanto o trabalho só aumenta e o diretor mais desgostoso fica. Não há mais explicações, nem raivas contidas, nem quereres suficientes para alimentar ciúmes e rancores.
O leito furacão já não existe mais e o objeto de tanto prazer desfez antes do cair do dia.
E agora a solidão sorri da sua obra prima com o prazer coletado do traidor na boca sem defeitos dos tempos passados na vigília de homens fracos e mulheres ofendidas em seu âmago pelo jargão ofensivo do falar.



*Do livro Pavilhão do Vizir, Rafael Rodrigo Marajá